8. MUNDO 14.11.12

A VITRIA DO HOMEM BOM

A reeleio de Barack Obama tranquiliza o mundo. A presidncia da mais poderosa nao seguir com um lder empenhado em manter o crescimento do pas, gerar empregos, amparar a populao afetada pela crise e respeitar os direitos civis
 Por Tatiana Bautzer, enviada especial a Orlando, Flrida

 FORA - Michelle, nunca te amei tanto como agora, diz: Barack Obama No palanque da vitria, em Chicago, Michelle abraa Obama. Ele disse que se orgulha da popularidade da esposa
 
O mundo respirou aliviado graas ao trabalho de gente como Natasha Williams. Negra, de classe mdia, 50 anos, Natasha tirou folga no departamento de polcia do condado de Orange, onde  funcionria, para lutar por Barack Obama como voluntria do Partido Democrata. Sua tarefa era a mesma de um batalho de advogados que os democratas espalharam pelos cantos empobrecidos e populosos da Flrida, o Estado multicolorido onde, talvez, os Estados Unidos mais se paream com o resto do planeta. Natasha estava empenhada em garantir que eleitores, principalmente negros e hispnicos, tivessem o direito de votar. E foi desse jeito que veio a vitria. Barack Obama acabou reeleito presidente pela fora da nova base poltica que se impe no pas, formada por latinos, negros, mulheres e jovens com menos de 30 anos. A ameaa de um revs conservador, que o mundo inteiro temia, passou. O Partido Republicano, sempre vido por guerras, amante da ortodoxia econmica e cada vez mais insensvel aos problemas sociais, sucumbiu ao voto.

Desde as sete da manh da tera-feira 6, Natasha Williams deu planto na igreja adventista Bethel, num bairro pobre de Orlando. Com o celular conectado ao comit local da campanha de Obama, ela resolvia casos como o da cozinheira Jaimie Martyn, que, embora vizinha da igreja, tinha recebido um documento mandando-a atravessar a cidade para votar em outro lugar. Esta carta no faz sentido e eles tm que permitir que voc vote aqui, explicava Natasha enquanto escoltava Jaimie at a longa fila na porta da igreja. A excluso de eleitores vindos de minorias, que em 2000 marcou a eleio de George W. Bush, foi brecada na marra. Na Flrida, 23% dos eleitores so hispnicos; 16,5%, negros; 51%, mulheres. Quase dois milhes de habitantes tm entre 18 e 30 anos.

Depois de uma longa e acirrada campanha, a reeleio do presidente Barack Obama foi comemorada por multides nas ruas das maiores cidades americanas. Acompanhado da mulher, Michelle, e das duas filhas, Sasha e Malia, Obama foi ovacionado no estdio em Chicago onde fez seu discurso de vitria, depois da uma da manh de quarta-feira 7. Mais quatro anos!, gritavam os eleitores, repetindo o refro dos comcios. Obama homenageou com carinho a mulher e as filhas e agradeceu o envolvimento dos voluntrios democratas que estimularam o comparecimento dos eleitores. Tenha eu merecido seu voto ou no, ouvi sua voz, disse. Aprendi com vocs e voltarei  Casa Branca mais inspirado do que nunca. Desta vez, sem prometer o impossvel, fez um pronunciamento pragmtico e pediu pela unio do pas.

Os quatro anos de presidncia de Obama foram duros e lhe custaram um naco de popularidade. Quando assumiu, em janeiro de 2009, o mundo estava submerso numa crise de dimenso histrica. A maneira como enfrentou os obstculos, contudo, garantiu a Obama uma imagem suficientemente slida para a reeleio. O caso da indstria automobilstica  um dos melhores exemplos. As montadoras americanas pareciam destinadas ao sumio. Numa medida impopular, a primeira de outras tantas que os analistas polticos condenaram, Obama socorreu as gigantes Chrysler e General Motors (GM) com emprstimos de emergncia. Em contrapartida, exigiu o corte de custos trabalhistas e a reviso de seus modelos de negcio. O Partido Republicano foi contra. Mitt Romney, o candidato derrotado dos republicanos, chegou a escrever um artigo para o jornal The New York Times intitulado Deixem Detroit quebrar. Quatro anos depois, Obama venceria em Ohio, no meio-oeste, onde se concentra boa parte da indstria automobilstica americana. Ele era o salvador de mais de um milho de empregos. Seu adversrio, o candidato dos ricos. Se Romney for eleito, os milionrios vo controlar o governo, dizia Matthew Szymanski, de 51 anos, que acompanhou, na semana passada, o ltimo comcio de Michelle Obama num parque perto do aeroporto de Orlando. Ex-militar, dono de uma imobiliria que quebrou com a crise na Flrida, Szymanski sente que os republicanos querem voltar aos anos 50.

 revelia da oposio, durante seu mandato Obama tambm aumentou os controles do mercado financeiro, reduzindo as brechas que levaram  crise de 2008. Com ele, a interferncia do Estado cresceu e isso acabou sendo fundamental para reaquecer a economia. Assim, no apenas nos Estados Unidos, mas por todo o mundo, Obama firmou-se como o maior porta-voz da agenda da ao governamental em oposio  austeridade ortodoxa. O pacote de estmulos de mais de US$ 800 bilhes que aprovou foi importante para injetar nimo no mercado e investimentos em infraestrutura. A taxa de desemprego recuou para abaixo de 8% faltando dois meses para as eleies e a previso  de que o Produto Interno Bruto avance 2%. Para Marty Linsky, professor de polticas pblicas da Universidade de Harvard, os americanos gostariam que a economia estivesse melhor. Mas, por outro lado, eles sabem que as coisas esto melhorando, mesmo que seja to lentamente, disse Linsky  ISTO.

No discurso da vitria, Obama tratou de preparar os americanos para dificuldades que o pas ter pela frente. Enfrentando uma feroz batalha sobre o dficit pblico com a Cmara dos Deputados, que continua sob controle republicano, Obama prometeu negociar. Quero trabalhar nos prximos meses com os lderes dos dois partidos para enfrentar os desafios que s podemos resolver juntos, como reduzir o dficit, reformar o sistema tributrio, mudar as regras de imigrao e livrar-nos do petrleo estrangeiro, afirmou. O primeiro teste ser a capacidade de fechar um urgente acordo sobre os limites de endividamento no Pas para evitar um corte drstico (de US$ 600 bilhes) nos gastos pblicos. Dois dias depois de pedir conciliao, Obama j recebeu sinais de que os republicanos aceitam negociar para dosar o corte.

A opo de Obama pelo multilateralismo como pea central de sua poltica externa  outro ponto que tranquiliza a comunidade internacional. O presidente que caou o terrorista Osama Bin Laden, para o regozijo dos americanos, foi prudente quando se deparou com novas ameaas. No momento em que os levantes da Primavera rabe ganharam fora na Lbia no ano passado, por exemplo, ele liderou uma interveno no pas para frear a ofensiva do regime de Muamar Kadafi contra os rebeldes. Mas s fez isso depois de apoiado pelo Conselho de Segurana das Naes Unidas, pela Otan e a pedido da prpria Liga rabe, o que era impensvel at algum tempo atrs. Em relao ao Ir, acusado de fabricar bomba atmica, Obama tambm atuou junto  ONU para negociar sanes a Teer, que incluem o veto ao fornecimento de armamentos pesados e tecnologia nuclear. Romney passou a campanha inteira sugerindo medidas mais drsticas.

O tom raivoso do Partido Republicano despontou como marca contundente na campanha eleitoral, o que ajuda a entender o alvio global experimentado com a eleio de Obama. A ltima administrao republicana, com George W. Bush, representou um colossal fracasso, coroado por duas guerras (Afeganisto e Iraque) e um crash global gerado na permissividade que foi ofertada aos financistas de Wall Street. A esse desastre, surpreendentemente, o partido respondeu com a magnificao do Tea Party, sua falange mais hidrfoba, conservadora e estridente. Essa guinada  direita, temperada pelo fundamentalismo religioso e fanatismo fiscal, acabou revelando-se desastrada: o Tea Party perdeu fora no Congresso, amargando derrotas de algumas de suas principais estrelas. O resultado da eleio mostrou que republicanos ignoraram a mudana demogrfica que ocorreu nos Estados Unidos, confiando no pblico de sempre  homens brancos, acima de 40 anos, cuja participao no total do eleitorado vem caindo. Um de seus principais equvocos foi a mudana de posies sobre imigrao. Nas pocas de forte crescimento econmico, ainda que isso no ficasse explcito publicamente, os republicanos viam a chegada de imigrantes como uma maneira de evitar presses por aumentos salariais em setores que usam muita mo de obra. Nessa campanha estrilaram por linha dura, numa cruzada contra os imigrantes ilegais. A rplica das urnas foi clara: mais de 70% do eleitorado latino, que ganha relevncia nacional com participao de 10% no total, votou em Obama, apesar das crticas que vinha fazendo  timidez de seu governo sobre o tema. Agora, a reforma migratria vai virar ponto central do novo mandato dos democratas.
 
Na questo dos direitos civis, o precipcio que separa conservadores e liberais parece ainda maior do que o abismo fiscal que desafia Obama. Os republicanos, tradicionalmente contra o aborto (legal nos Estados Unidos desde a dcada de 70), vm elevando o tom de suas crticas ao procedimento. Alguns de seus candidatos mais religiosos passaram a rejeitar o aborto at em caso de estupro. O governador da Flrida, Rick Scott, colocou na cdula desta eleio uma proposta  que acabou rejeitada pelos eleitores  para eliminar recursos pblicos dirigidos  prtica do aborto. Os republicanos fizeram ainda diferentes sugestes de limitao ao uso de contraceptivos e defenderam leis que probem direitos s unies de pessoas do mesmo sexo. Enquanto isso, eleitores de trs Estados, Maine, Maryland e Washington, aprovaram casamentos gay e o Colorado passou a aceitar o uso recreativo da maconha. Num cenrio desses, Obama reforou a imagem de tolerncia dos democratas ao dizer em seu discurso que todos tm a chance de ter sucesso nos Estados Unidos, sejam eles brancos, negros, asiticos ou indgenas, jovens ou velhos, saudveis ou deficientes, gays ou heterossexuais.

No  difcil entender por que a pgina editorial do Wall Street Journal, um dos mais tradicionais basties do conservadorismo nos Estados Unidos, fez um editorial depois da derrota de Romney afirmando que o Partido Republicano no sobreviver sem adaptar suas posies  nova demografia do Pas. Os republicanos viraram o partido de um nmero declinante de eleitores mais velhos e brancos, concentrados no sul ou em comunidades rurais e pequenas cidades, afirmou o jornal. Isso  visvel em qualquer reduto republicano. Num local de votao de um bairro de alta renda em Orlando, um casal de mais de 60 anos, que preferiu no se identificar, explicava que votaria em Romney porque Obama apoiava coisas proibidas pela Bblia, como o aborto ou o casamento gay. No comit central de campanha de Mitt Romney em Orlando, que ocupava uma loja de um shopping a cu aberto, o voluntrio Dale Smith, de 67 anos, veterano da guerra do Vietn, dizia que a eleio de Obama feria liberdades econmicas e garantias fundamentais da constituio, como a de portar uma arma. Defendemos nossa liberdade contra o socialismo que Obama quer implantar, bradou, reclamando dos gastos em programas sociais e da alta dvida do pas. Smith passou 15 minutos explicando por que a jornalista brasileira deveria assistir a um documentrio do comentarista politico Dinesh DSouza, recheado de teorias conspiratrias sobre a influncia da famlia e infncia de Obama em suas convices polticas. Mais impressionante foi a reao do comentarista conservador Rush Limbaugh, um dos mais agressivos crticos do presidente, em seu programa de rdio no dia seguinte  reeleio. No consigo entender como no elegemos um homem to bom como Romney, afirmava Limbaugh. Sua teoria para explicar a derrota era simplria:  impossvel ganhar a eleio do Papai Noel.

Colaborou Mariana Queiroz Barboza


